O caso de Ariimatatini Vairaaroa, um pai que tratou o seu filho epilético e autista com óleo de canábis, está de novo no centro das atenções dos tribunais da Polinésia Francesa.
Inicialmente absolvido em junho de 2024, é agora objeto de uma nova acusação, tendo o Ministério Público recorrido da decisão. O novo julgamento teve lugar em 2 de abril de 2025.
Defesa do pai: tratamento que salvou a vida
A defesa de Vairaaroa assenta num argumento simples: o óleo de canábis que produziu reduziu significativamente os ataques epilépticos do seu filho, que chegavam a atingir 30 episódios por dia.
O seu advogado, Thibault Millet, explicou que, depois de todos os tratamentos convencionais terem falhado, o pai recorreu a variedades de canábis ricas em CBD, inspirado pela investigação médica em Israel.
“A nossa sociedade é responsável. Há remédios que não estão disponíveis em França“, defendeu Me Millet, convidando o tribunal a ter em conta o impacto humano da rigidez das leis sobre estupefacientes.
A defesa também apresentou três certificados médicos confirmando que as plantas apreendidas e o óleo eram predominantemente CBD. De acordo com o advogado, isso deve permitir que Vairaaroa evite a acusação sob os regulamentos polinésios recentemente reformados, que agora permitem o uso de cannabis terapêutica com baixo teor de THC.
O argumento do promotor: consumo pessoal e não necessidade
Apesar da absolvição em primeira instância, a procuradoria mantém-se firme na sua posição. O procurador argumenta que o consumo pessoal de canábis por Vairaaroa desqualifica a sua defesa da necessidade.
“Ele consome desde os 16-17 anos e a sua mulher diz que ele fuma todas as noites”, afirmou o procurador público. A acusação insiste que o caso não tem a ver com a saúde do filho, mas com o consumo pessoal de canábis do pai, lembrando que este foi anteriormente condenado pela mesma infração em 2021.
A acusação também rejeita a ideia de que Vairaaroa não tinha alternativa legal, argumentando que há outras formas de lidar com o stress, como o desporto ou plantas legais. Em consequência, foi-lhe aplicada uma pena de prisão suspensa de três meses, tendo o Ministério Público afirmado: “A sentença de absolvição, para mim, não faz sentido.”
Para o Sr. Millet, o caso é indicativo da incapacidade da sociedade para responder às necessidades dos utilizadores de cannabis medicinal.
“Este é um caso muito específico”, insistiu, descrevendo o impacto devastador que a apreensão das plantas teve no adolescente. Após a mudança forçada de tratamento, o rapaz teve uma recaída grave, sofrendo convulsões de dois em dois minutos durante quatro dias.
“O que faria se o seu filho estivesse a sufocar e houvesse um tratamento ilegal?”, perguntou ao tribunal.
Millet também criticou a rigidez do sistema judicial, lamentando: “Sinto que estamos a caminhar para uma justiça robótica. A humanidade deve estar em primeiro plano nesta audiência”.
O seu apelo encontrou eco na sala de audiências, numa altura em que a opinião pública se mostra cada vez mais favorável à legalização da canábis medicinal.
O tribunal de recurso pronunciará a sua decisão a 15 de maio de 2025. Se a condenação for confirmada, a defesa de Vairaaroa já prometeu levar o caso ao Cour de cassation, com o objetivo de criar um precedente que poderá influenciar a futura política de canábis na Polinésia Francesa e não só.